Em seminário do Instituto Diálogos, dirigentes do IBRAM e da Associação de Minerais Críticos e pesquisador do SENAI destacam os desafios do financiamento, do domínio tecnológico e da competitividade das cadeias produtivas no Brasil.
O papel dos minerais críticos na transformação industrial brasileira e os caminhos para ampliar a agregação de valor à produção mineral foram o foco do seminário “Minerais Críticos: da Nova Lei à Transformação Industrial”, organizado pelo Instituto Diálogos. O encontro reuniu, em 8 de outubro, em Brasília (DF), integrantes do poder público, do setor produtivo e da área de pesquisa para discutir os desafios e as oportunidades do aproveitamento estratégico dos recursos minerais diante das mudanças na economia global.
Durante o painel “Da mina à agregação de valor: o marco brasileiro diante das melhores práticas internacionais”, os participantes discutiram as condições necessárias para que o Brasil avance da produção mineral para etapas de maior valor agregado, além de questões relacionadas ao ambiente regulatório, à inovação, à tecnologia e às experiências internacionais no desenvolvimento de cadeias de minerais críticos.

Para Pablo Cesário, diretor de Relações Institucionais e diretor-presidente interino do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), o Brasil já construiu uma base importante para uma política de minerais críticos, mas precisa avançar em tecnologia, financiamento e coordenação. “A gente tem uma estrutura de política pública. Como estrutura, acho que é uma das melhores do mundo, mas falta colocar carga nesse edifício”, afirmou. Segundo ele, as políticas também precisam considerar as particularidades de cada cadeia mineral. “Não é a mesma coisa falar de cobre, de lítio ou de terras raras. Há negócios diferentes dentro desse conjunto e vamos ter que ter ferramentas específicas para cada um dos minerais”, disse.
Cesário também defendeu maior integração entre empresas e centros de pesquisa, com financiamento previsível e de longo prazo. “O grande desafio é mais do que saber que planta vai estar em que lugar. É saber quem domina o conhecimento. Não é planta. É conhecimento. Esse é o jogo”, disse. Para ele, o Brasil também precisa assumir um papel mais ativo nas negociações internacionais e usar sua capacidade industrial para participar da definição das regras desse mercado.
Investimento e transformação industrial
Marisa César, diretora de Assuntos Corporativos e Sustentabilidade da PLS Brasil e presidente do Conselho de Administração da Associação de Minerais Críticos, destacou o volume de recursos necessários para desenvolver essas cadeias. “Quando falamos de minerais críticos, estamos falando de uma cadeia que exige um alto valor de investimento. Esses investimentos vêm, muitas vezes, de investidores estrangeiros”, afirmou.

Ela também apontou os custos envolvidos na transformação mineral no país. “O Brasil tem um potencial e tem questões que são muito positivas. A questão da matriz energética é muito positiva, mas uma das complexidades que a gente tem é o alto custo da importação de reagentes químicos”, disse.
Para Marcos Berton, gerente de Tecnologia e Inovação e pesquisador-chefe do Instituto SENAI de Inovação em Eletroquímica, o desafio brasileiro é transformar o conhecimento e os recursos minerais em uma indústria capaz de competir em mercados específicos. “Pela primeira vez, estamos falando de transformação industrial: de como saímos desse papel extremamente importante na produção mineral e transformamos esse movimento em uma indústria”, afirmou.

Berton destacou iniciativas para desenvolver no Brasil uma cadeia de produção de baterias de íons de lítio, mas defendeu maior coordenação dos esforços. “Falta uma coordenação nacional para conduzir isso, para direcionar. Temos que ter foco”, disse. Para ele, os incentivos também deveriam acompanhar o avanço na cadeia de valor. “Quanto maior for esse avanço, quanto mais você avançar nessa cadeia, maior deveria ser o incentivo que receberia”.
Agregação de valor e competição global
O moderador do painel, Rodrigo Toledo Cabral Cota, ex-diretor do Departamento de Transformação e Tecnologia Mineral do Ministério de Minas e Energia, destacou que a discussão sobre minerais críticos abrange, além da mineração, setores como inteligência artificial, energia, defesa e tecnologia aeroespacial. Para ele, a cadeia passa pela extração e pelo beneficiamento, pela transformação mineral e, posteriormente, pela fabricação de produtos como baterias, painéis solares e veículos.

Cota ressaltou que a agregação de valor precisa considerar também a competitividade do negócio. “Nem sempre, especialmente quando a indústria sofre com a concorrência da China, agregar valor ao produto significa agregar valor ao negócio”, afirmou. Segundo ele, o desafio brasileiro é desenvolver tecnologia e condições para fortalecer a etapa de transformação mineral fora da China, onde o setor recebe forte apoio estatal.
Ao final do debate, os participantes convergiram quanto à oportunidade de ampliar a presença brasileira nas cadeias globais de minerais críticos e à necessidade de desenvolver capacidade industrial e tecnológica no país. Para isso, são necessários investimentos de longo prazo em pesquisa, inovação e infraestrutura, além de maior coordenação entre governo, empresas e centros de pesquisa e de parcerias com países que já dominam tecnologias específicas. A criação de hubs de transformação mineral também foi apontada como uma alternativa para reunir empresas e tecnologia, ampliar a agregação de valor e acelerar o desenvolvimento dessas cadeias no país.
O seminário teve o patrocínio do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) por meio do Sistema Senar CNA. A Consultoria Vallya e o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) atuaram no suporte à organização da programação do seminário.
